A PATA DO MACACO

A PATA DO MACACO  (o retorno) (Primavera De Oliveira)

Nunca aceitei o final do conto de William Wymark Jacobs, “ A Pata do Macaco”, sempre achei que deveria ter uma continuação, não poderia simplesmente terminar com uma porta aberta no vazio. Espero que gostem desse novo final, ou simplesmente, o retorno da pata do macaco.

[….]

As batidas incessantes continuaram até que a Sra. White conseguiu finalmente abrir a porta. E sobre o capuz negro um olhar horripilante sobre ele se desfez. A noite murmurava e do outro lado da rua a luz prateada se cobria de negro, de longe um uivo solitário se desprendia sob o luar.

O Sr. White procurava desesperadamente a pata do macaco para refazer o pedido já que suas palavras não foram totalmente completadas. E em meio ao desespero procurava enlouquecidamente, apalpando o chão no escuro e frio do ambiente. Subitamente a pata havia desaparecido depois que contorceu na sua mão.

Os gritos começaram a vir da sala, a Sra. White exclamava por todo o recinto, Herbert! Herbert! Herbert! Meu filho! Meu Deus, meu filho! Incrédulo e apavorado o Sr. White, finalmente desistiu de encontrar o objeto e levou o olhar para o estranho parado na soleira da porta.

-Boa noite, papai, as duzentas libras já foram entregues?

E com uma voz doce e delicada, disse calmamente:

-Quando a máquina estava me engolindo, pensei que Deus pudesse pelo menos atender o seu desejo.

-Parece que o desejo foi aceito, não é mesmo!? -E quando eu estava acordando finalmente do túmulo, e sem a minha mão que foi triturada pela máquina, algo veio ao meu encontro.

-Olha só papai, que mão linda, eu que senti todos os meus dedos sendo prensados e rasgado junto com o fogo que a máquina me sugava, e em suas labaredas o rosto sinistro de um macaco me olhava. –E depois aquela risada macabra e infinita, tudo se apagou.

-Olha para o meu braço, papai!

E esticando a mão como se fosse cumprimenta-lo, uma pata se abriu de seu paletó. O velho Sr. White, incrédulo e pálido, não conseguiu dizer absolutamente nada, ficou estático sem nenhuma gota de sangue sobre sua face.

A Sra. White, disse que aquilo não importava, era uma mão como outra qualquer. E logo disse para o filho ir à cozinha, pois, deveria estar com fome.

-Vamos, vamos filho até à cozinha, irei fazer o melhor jantar de sua vida!

E o Sr. White com o olhar de pavor, finalmente conseguiu dar um passo, e foi até a porta fecha-la. No final da rua pareceu ter visto o vulto do velho amigo, Sr. Morris.

A mãe perguntava sobre o acidente, se ele lembrava de alguma coisa depois da fatalidade. O filho dizia apenas que se lembrava da face de um macaco e o brilho das moedas tinindo sobre o esmagar de seus dedos dentro da máquina.

O pai assistia tudo horrorizado, suplicando a Deus que aquilo terminasse de algum modo. O filho tomava uma xícara de leite quente, enquanto perguntava sobre o que eles fizeram com o dinheiro. A Sra. White parecia não perceber tudo o que tinha acontecido, era como se o filho tivesse voltado depois de uma longa viagem. Como se nada tivesse acontecido, os dez dias anteriores era como se fosse um sonho. Absolutamente nada havia mudado em seu mundo.

O Sr. White preferiu não sentar, continuou imóvel próximo à entrada da cozinha olhando tudo aquilo, ainda incrédulo e com o corpo em estado de choque, ouviu tudo em silêncio profundo.

Logo depois do jantar preparado com tanto carinho e alegria pela Sra. White, o filho se levantou e foi em direção ao tabuleiro de xadrez na sala ao lado. A noite ainda permanecia escura e ruidosa, de repente um barulho fininho veio do portão lá fora. A mãe nem perceberá, mais os dois homens sim. E trocaram um ligeiro olhar, algo os vigiavam.

A Sra. White subiu as escadas para preparar um banho para o filho que retornará dos mortos, e mais vivo do que nunca. Somente o silêncio entre os dois homens permaneciam no ambiente.

O filho parecia pressentir o pensamento de seu pai e um leve sorriso emergiu de sua face.

Rompendo o silêncio disse calmamente para seu pai: – Vamos pai, está tão frio aqui que nem parece que eu voltei dos mortos. –Que tal acender a lareira?

Ainda em estado de choque e incredulidade, o Sr. White não questionou a vontade daquilo que lembrava seu filho. Rapidamente Herbert colocou sua nova mão sobre o ombro de seu progenitor. –É incrível como algo peludo pode mudar tão drasticamente o destino, não é mesmo meu pai!?

-Sim, é verdade disse o Sr. White. – É verdade! – Talvez, os destinos não sejam traçados, podem existir mudanças, não é mesmo? Ou quem sabe no final os destinos podem ser retomados depois de uma pequena fissura?

-Quem sabe, não é mesmo, meu pai, pena que nosso amigo o sargento Morris não esteja aqui para nos ajudar nessa discussão. – Vamos jogar uma partida?

O Sr. White apenas disse, nessa noite não. Apenas nessa noite, não!

Do andar de cima a Sra. White bradava euforicamente para o filho tomar o banho ainda quente.  Ele subiu calmamente e ainda deu tempo de dar uma olhada para o pai imóvel perto do fogo da lareira. De longe viu a face de algo que lembrava um macaco, mas que desapareceu rapidamente assim que o Sr. White segurou o rei nas mãos.

O frio gritava lá fora. Sobre a copa das árvores o vento dançava morbidamente como uma velha no seu último suspiro de morte.

Mãe e o filho silenciaram quando as portas cerraram e foram dormir. O Sr. White pensava alucinadamente em como pôr fim a todo aquele terror.  E foi caminhando devagarinho até a cozinha, pegou sobre a pia a faca usada para o último jantar de seu filho querido. Era melhor assim, uma aberração não poderia jamais ser permitida. Deus nunca iria aceitar aquilo como seu filho, era precisa salvar a alma daquele que mais amou em sua vida.

Riscou um fósforo e ascendeu um pequeno pedaço de vela maldita daquela noite interminável e amaldiçoada. Subiu silenciosamente a escada até chegar perto daquele monstro deitado na cama do pobre Herbert. E quando seu braço ergueu para apunhalar aquela coisa horrenda, uma mão peluda e robusta lhe segurou o pulso. Ambos se puseram a lutar. O Sr. White caiu no chão com um golpe certeiro daquela pata maldita.

Agora seu filho lhe segurava pelo pescoço enforcando-o como se fosse uma pobre criança.

Não mais sentia seu corpo, as mãos se desprenderam do peito do filho que inutilmente tentava empurrar. Nesse momento um vultou que parecia ser do velho amigo Morris, pegou a faca caída próxima ao seu filho, e com um corte certeiro decepou aquela pata amaldiçoada. E o Sr. White pegou rapidamente aquela mão e fez logo o último pedido que não tinha sido totalmente completado. E acordou na sala de visitar com o ranger dos dentes no copo vazio do amigo Morris. E ao lado do amigo, o Sr. White via seu filho atento e curioso sobre aquela velha história de uma pata de macaco. (Primavera De Oliveira)

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