Amanheceu Mulher

Amanheceu mulher correndo nua pelo mundo (Primavera De Oliveira)

Era manhã de sábado, sua mãe dormia no mundo contida pelo silêncio enclausurado em meio ao nada. Percorreu todas as contrações,  cambaleando em versos analfabetos, beijou o acaso, e assim Manoela veio ao mundo. Linda, bela, vibrante, sorridente e cantante, cativava o mundo. Seu pai analfabeto e letrado em contas e aritméticas, alcoolizava os algoritmos.

Correndo nua (I Parte)

Não sei bem ao certo as horas em que Manoela veio ao mundo, correndo nua, fitando o mundo. Era deserto, e chovia intensamente. Manoela, bela de olhos vibrantes. Nua, gozava pelas ruas entorpecida em seu narcisismo cambaleante.  Seu algoz, desumano, agarrou seu pescoço em desprezo, sua mãe apaziguou. E assim, foi toda uma vida de estrangulamentos.

Canções inexistentes, machismo exorbitante. Manoela era hematomas, feridas pulsantes, coração em transe. Ainda sorria, cantava para desespero dos loucos alucinantes da rotina diária. Amava, incansavelmente, desesperadamente, objetos grotescos das novelas paradisíacas. Belos hematomas, feridas ruidosas.

Novamente leviana

 (II Parte)

Nas calçadas do edifício, rebolava, andava exorbitando canções, sexo, pudor, devaneios entre estrelas. No lar o grotesco da vida diária, labirintos omissos, torturas picantes em borboletas bailarinas. Baygon, detefon, odores horrendos de vidas desprezíveis. Mata baratas, matem as vidas, niilismo, somente vazio, desprezo, solidão e depressão. Mas, Manoela, nasceu nua, linda, sorridente, amante do destino, da vida, dos outros, do outro e dela mesma. Mulher, sapeca, frívola, por vezes consistente, depois novamente leviana de olhos oblíquos.

Começou bela, depois estrelas, por vezes lágrimas. Não sabia de todas as histórias, nem dos destinos, nem da vida, apenas bailava iguais as borboletas em bando. Em novembro sorriu Manoela, era desgosto e nem mesmo agosto. Foi com cuspe e bofetadas, de rim adulterado, sobreviveu, amou, rejeitou, alucinou. Sofreu, amou e sossegou o coração indócil, volátil, pardo. Pobre Manoela, tão doce e esperta. Morreu em migalhas, sofreu em demasia, até não mais se ponderar, tropeçou pela vida inaudita. Pobre Manoela, tão bela.

Consumidores em transe caótico (III Parte)

Ah, … o passado indigesto, cômico, caótico, mães adulteras, estéreis, religiosas, sádicas, vadias embriagadas. Leitões paridos, filhas ingratas, mas, Manoela era amor, bela e nua.  O tempo, a vida, a matéria, a rejeição, os amores e olhares, e Manoela nua, amantes de outros espaços, outros tempos ruidosos.

Sabe? Não somos humanos, somos fregueses, em estado de gozo. Gozamos o mundo em um minuto. Pobre Manoela, tão inocente, linda e em decadência num mundo de desumanos. Tragédias contemporâneas. Budweiser beer, gostosa, apetitosa, demasiadamente saborosa. Ah, verbos contemporâneos.  Gozar e gozar, até não mais sentir. E na solidão amar o nada, o vazio, o transe. Solidão contemporânea!

E Manoela, sobreviveu a tudo isso. Aos assédios escolares. Depois, novamente assédios no trabalho. Assédio do carteiro, do açougueiro, da manicure lésbica e feminista. E novamente do porteiro, do professor universitário, da cabeleireira que cheirava pó, do carpinteiro. Enfim, transes emblemáticos, espaços ruidosos. Destino e depois apoderar-se de merda trepante. Gozo, gozo viscoso com gosto de vazio cambaleante. Nada, vazio, inexistente, amor desconexo. Nada! De novo, nada.

Mundo cristão (IV Parte)

E continuou fumando, trepando, amando…. Até todos os novelos diluírem e suas pontas alcançarem os bueiros emergindo lodo, esgoto, tinta. Tapetes pisados, destruídos. Bofetadas, arranhões na pele, na pelve, em todos os membros e orifícios. Nos dias seguintes, ressaca, granola e mel.

Os horários, as noites, os homens. Retratos do passado, a mãe em coma, em transe, em silêncio, em rezas bucólicas, tramando junto com os cristãos. Sufocando a vida, o outro, os amores, os gostos e desgostos. Nasceu nua correndo pelo mundo na contramão das regras. Fumava cigarro, tomava ervilhas diluídas em cinzeiros negros. Tocos, pontas de cigarro, resto de álcool. Ah, … Manoela, tão esperta, tão genuína, tão linda, humana, ousou sentir e viver. Não existe liberdade num mundo cristão. Apenas fé, liturgia e calçadas desconexas.

Doenças urbanas (V Parte)

A madrugada ruidosa em restos de copos, cacos de vidros. Banheiros sujos, imundos. O pecado em resto de embalagens. Manoela, tanta vida em uma única vida. Deus quisera ser setembro e primavera. Verão e inverno congelante. Atmosferas em enredos e cantos litúrgicos. As novenas e todos os seus deuses e santos embriagados. De novo a carne, a dor, a entrega, o gozo.

Tantas atmosferas, tantos amigos, juventude plena e leprosa. Doenças urbanas, lepras viciantes. Jovens leprosos, egoístas, viciados, oníricos e líricos, perturbações mecânicas avidas de desejos autênticos e sombrios. Mundo cristão, jejum, tristeza, difamações disformes, vidas vibrantes e congeladas no santíssimo altar.

Manoela, casou. Manoela morreu. Manoela não mais gozou, nem fumou ou vibrou. Entorpeceu de vida doméstica. Cães, gatos, samambaias, vestidos floridos, temperos nos alimentos, amigos desconcertantes.

Sua mãe paria, ouvia hinos na igreja. Seu pai bebia, mentia, fedia, pulsava excrementos, mentes diabólicas. Bocas deterioradas, cheias de minhocas, restos de arroz e cachaça. Xingava, jogava na loteria e de dia dormia. Manoela amava, cantava, sorria. Começou pisando em grama, depois, sentiu a areia, o sol, o mar e o acaso. No vazio gemia. Na escuridão iluminava, e beija-flores amanheciam em seu jardim.

Era novembro (VI Parte)

Não era inverno, nem outono, nem verão ou primavera, somente estações sem cores. E Manoela socorria os enfermos, as meretrizes pudicas e as crianças desidratadas. No início de fevereiro começou plantando sementes, trepadeiras, samambaias, bailarinas, cactos e novelos distorcidos. Depois chegou novembro, chuvas e revistas de passatempo. E nas lembranças o passado em transe. Talvez, dezembro nevasse, e o final de ano temperasse a vida, os destinos, os sinos da igreja e todos os seus bares ao redor.

E dezembro chegou, juntos com as chuvas, os sapatos gastos, os delinquentes e seus enredos desprezíveis. Nem sinal de Manoela, nem de novelas, comidas temperadas ou revistas de passatempo. Juntou as lembranças, suas fotos gastas e rasgadas. Olhou para o viaduto e desistiu de tudo. O mês de novembro sossegou seu coração agitado, e no próximo mês depois de todas as lagrimas enxugadas, enxergou o vazio. E de cima do parapeito do viaduto olhou tudo isso e sorriu. (Primavera De Oliveira)

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